quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Maranasati - atenção sobre a morte

   Maranasati - atenção sobre a morte


      Venho escrever nesse fim de 2016 a fim de destilar algum entendimento precioso escondido nas confusões de um ano tão marcante, seja para mim, seja para o mundo. Talvez tenha ficado mais clara a selvageria dos ditos nobres de nossa sociedade. Sua fome e ânsia de poder, sua cegueira às necessidades básicas de tantos paupérrimos, tudo isso ficou mais claro à vista. Mesmo assim, sinto que não é algo que tocou o meu âmago, provavelmente por uma alienação decorrente de questões mais minhas.
         O que mudou esse ano? Mudou o que estava sujeito e sempre esteve à mudança. Veio à tona o óbvio, que uma sociedade infantil e imatura teme e repudia cotidianamente. Apenas queremos ver o desabrochar da vida, achando que o universo consiste apenas a um eterno parto. Temos uma aversão, um pavor intrínseco ao nosso cotidiano, de que as coisas tenham um fim. Agora a fobia realmente se instala, o pânico é inaugurado, quando percebemos que o que “amamos” também tem um fim. Como iremos viver sem isso, sem aquilo? Sem aquela pessoa? É uma visão ingênua e bem narcisista. Consideramos-nos como o centro desse imenso, ou melhor, imensurável universo. Repleto de galáxias, com estrelas e planetas indo e vindo, algo realmente que foge à compreensão de uma mente tão primitiva. Afinal, não se pode pôr o oceano inteiro dentro de um balde. Consideramos injusta a perda de alguém bom, ou que alguém tenha nos deixado. Uma demissão, uma doença, ou seja lá o que for. Por que? Por que? Temos realmente que achar que, apenas porque orarmos e pedimos incontáveis vezes, Deus irá fazer o cosmo voltar a orbitar em volta de nosso umbigo? Te dou uma dica, ele nunca orbitou, nunca nem fez apenas um singelo movimento em relação a você. O momento da morte, da doença, é o momento de se abraçar a realidade. É o morder de uma maçã, que nos expulsa de um paraíso antiguíssimo. É o instante de se acordar desse sonho medieval, onde acreditamos firmemente em um geocentrismo, ou melhor, egocentrismo. O verdadeiro oportunista usará sabiamente tal momento, o utilizará como trampolim para mergulhar e entrar em contato com o que sempre foi. Ali se tornará realizado, ali descansará. Perceberá que sempre viveu numa aflição, que antes desconhecia. Seus dentes rangiam, os músculos tensos, e não sabia o porquê. Esse é o custo de se forjar uma pseudo existência que todos nós pagamos. Andamos de um lado para o outro, alguns em carros custosos, outros em transportes insuportáveis, com a mente à mil, buscando conforto material e prestígio social, algum reconhecimento. Buscamos uma carreira próspera; mal temos tempo para olharmos para a prosperidade do surgir e desaparecer. Vivemos uma vida de sonhos irreais, que não ousam tocar a realidade. Nossas retinas estão empoeiradas com a herança de uma sociedade simplória, porém longe de ser simples, desnecessariamente complexa e agitada.
          A morte é algo real, exasperadamente real. Incrivelmente nova, é o que há de mais inusitado e eterno. Não é diferente do nascimento, mas é inédita pois vai além de nosso roteiro habitual sobre o que é a vida. Ela quebra, dilacera e extingue o conceito que temos sobre vida. Ainda mais a morte de um ente querido: temos apenas dois caminhos, ou revolucionarmos nosso enxergar; ou furtiva e desesperadamente nos refugiarmos em prantos sobre a injustiça de nosso mundo. Nos confortamos mesquinhamente no fato de que somos coitados, de que a vida deveria seguir nossos planos, e não nós que a deveríamos seguir religiosamente. A morte, a doença, a velhice, a dor insuportável nos mostram que não estamos preparados para morrer. Que não estamos de acordo com Deus. Queremos negociar com ele, barganhar nossos desejos. Me incomoda profundamente isso, me acorda para um enorme dever. Como um imperativo, uma necessidade impreterível, inadiável, um trabalho que devo adotar urgentemente. Me parece que tudo me leva a isso, encontro-me encurralado na exigência de se reconhecer a impermanência.
         E não entendê-la lendo um texto, ou preguiçosamente através de infindáveis análises lógico-intelectuais. Quero fazer que cada fibra, cada célula do meu corpo pulse com essa compreensão. Quero encurralar a existência, vasculhar em cada canto, varrê-la por completo, e verificar, com a mais profunda paciência, o que é impermanente. É uma tarefa que pode durar uma vida, ou talvez universos e universos, mas ao final, sei que inundarei meu coração com o néctar da realidade, e com certeza, morrerei sorrindo.